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Quando os avós não largam o telemóvel: Porque é que passam tanto tempo no smartphone

Família asiática ao redor da mesa de jantar com sopa fumegante e jogo de tabuleiro, interagindo e sorrindo.

Durante anos, em muitas famílias, eram as crianças e os adolescentes que levavam o rótulo de “viciados no telemóvel”. Só que a imagem está a mudar a grande velocidade: cada vez mais são as avós e os avôs - já reformados - que, de olhar fixo, deslizam por feeds do Facebook, vêem vídeos no YouTube ou se deixam orientar por conselheiros de IA, enquanto os netos ficam à mesa à espera de uma conversa de verdade.

Quando os avós, ao jantar, só conseguem olhar para o ecrã (smartphone e tablet)

Ainda há pouco tempo, a frase típica de muitos avós era inequívoca: “Larga finalmente o telemóvel e aproveita a vida a sério!” Hoje, soa a outra época. Os papéis inverteram-se: são os netos que pedem que o smartphone seja pousado de lado para poderem partilhar uma refeição em conjunto.

Em algumas famílias, repete-se o mesmo cenário: as crianças chegam de visita, entusiasmadas por ouvir histórias antigas - e encontram a avó ou o avô completamente absorvidos no feed de notícias, no Messenger ou em intermináveis vídeos de gatos.

"O ecrã, que antes ligava gerações, está agora muitas vezes mesmo entre elas."

Há dados iniciais dos EUA que já reforçam esta perceção: medições indicam que pessoas com mais de 65 anos duplicaram, em apenas dois anos, o tempo que passam em plataformas como o YouTube. O Facebook continua a ser, para muitos, o ponto de encontro principal - mas aquilo que era “só espreitar um bocadinho” transformou-se, em inúmeros casos, em várias horas por dia.

Ao mesmo tempo, está a acontecer algo inesperado: muitos jovens adultos tentam reduzir a sua própria exposição ao ecrã, pousam o telemóvel de forma intencional ou desligam as redes sociais ao fim do dia. Enquanto os mais novos experimentam um “Digital Detox”, parece que pais e avós estão, agora, a acelerar.

Porque é que os mais velhos ficaram, de repente, tão agarrados ao smartphone e ao tablet

Esta mudança não surgiu do nada. Há vários factores a empurrar os mais velhos, quase sem se aperceberem, para o centro do mundo digital.

A pandemia de COVID-19 como acelerador da digitalização dos mais velhos

A pandemia mexeu com tudo. Para ver a família, passaram a ser necessários videochamadas. Para acompanhar a missa ou o culto, era preciso um livestream. Para falar com um médico, tornou-se comum marcar consultas online ou recorrer a atendimento por vídeo.

Muitos idosos, por isso, não tiveram alternativa: tiveram de aprender a usar smartphone, tablet ou computador portátil - caso contrário, ficariam completamente isolados. O que começou como solução de emergência tornou-se hábito. E, para alguns, esse hábito acabou por virar um novo passatempo.

A geração que hoje está reformada já não é “inocente” em tecnologia

Muitos dos actuais reformados já trabalharam com computadores, escreveram e-mails e usaram software no emprego. Isso reduz bastante o medo da tecnologia quando comparado com o que se via há 20 anos.

  • Os ecrãs tácteis parecem mais simples do que os PCs antigos
  • Textos, fotografias e vídeos partilham-se com poucos toques
  • Operações bancárias, compras e viagens: muito disto faz-se com conforto, a partir de casa

Depois de se habituarem a esta comodidade, é fácil pegar no telemóvel “só por um instante” - e ficar muito mais tempo do que se tinha planeado.

Solidão, problemas de sono e tédio como motores do uso excessivo

Há ainda factores típicos do envelhecimento: mais tempo livre, menos compromissos e, por vezes, dias silenciosos. Muitas pessoas vivem longe dos filhos, os círculos de amigos encolhem, e há quem perca o companheiro ou a companheira. E quando o sono falha, a distração mais imediata costuma estar ali ao lado - o smartphone na mesa de cabeceira.

"O que começa como ajuda contra a solidão pode, discretamente, transformar-se numa dependência."

Especialistas alertam: a solidão pode ser tão pesada para a saúde como fumar de forma intensa. Visto por este prisma, um grupo activo no WhatsApp ou uma videochamada semanal podem ser claramente positivos. O problema é que a fronteira entre uma troca útil e um afastamento constante para dentro do ecrã é pouco nítida.

Onde a proximidade digital termina - e a distância real começa

Psiquiatras traçam uma linha clara: torna-se preocupante quando alguém evita o contacto presencial para permanecer online. Se, por exemplo, a avó decide conscientemente não participar numa noite de jogos com os netos porque “ainda quer ver mais uns vídeos”, isso aponta para algo além de um simples hobby recente.

Os netos e as crianças sentem-no na pele. Viajam quilómetros para ver a família e acabam sentados ao lado de pessoas que estão fisicamente presentes, mas mentalmente desaparecidas no telemóvel. O ambiente azeda, cresce a frustração. Alguns jovens adultos admitem, sem rodeios, que nesses momentos chegam a questionar se a visita vale a pena.

E é irónico, porque o smartphone nasceu para o contrário: ser uma ferramenta que aproxima gerações - com fotografias partilhadas, mensagens de voz e grupos de família. Agora, em certas casas, transforma-se numa barreira entre as mesmas pessoas.

Netos como “pais digitais”: quem é que protege os mais velhos?

Com crianças, é comum existirem regras de media: limites de tempo de ecrã, filtros de protecção, aulas sobre Fake News. E com os mais velhos? Quase nada. Muitos navegam sem qualquer orientação em timelines comandadas por algoritmos.

A situação torna-se especialmente delicada em três pontos:

  • Ausência de noção de limites: não há ninguém a dizer quando passou a ser demais.
  • Risco de desinformação: conteúdos sensacionalistas, teorias da conspiração e Fake News chegam ao ecrã sem filtro.
  • Dependência emocional: gostos, notificações e novidades alimentam um “só mais uma olhadela”.

Assim, filhos e netos caem numa posição pouco habitual: de repente, têm de falar com pais e avós sobre higiene digital, identificar sinais de alerta e colocar limites. É uma sensação de parentalidade invertida - só que dirigida para cima.

Como as famílias podem abordar o tema sem conflito

A maioria dos mais novos não quer tratar os avós como crianças. Ainda assim, precisam de formas de proteger a própria necessidade de presença e proximidade. Em geral, o que ajuda mais são acordos concretos.

  • Criar “zonas sem telemóvel” em conjunto: por exemplo, mesa das refeições, momento do café, passeio
  • Definir horários fixos para videochamadas ou redes sociais, em vez de disponibilidade permanente
  • Planear actividades offline em família: organizar álbuns de fotografias, jogos de tabuleiro, cozinhar
  • Fazer perguntas abertas em vez de acusações: “Sinto falta da nossa conversa; podemos pousar o telemóvel um bocadinho?”

O tom respeitoso é determinante. Começar com “Estás viciado/a” costuma gerar apenas resistência. Resulta melhor falar na primeira pessoa: “Tenho a sensação de que não estás mesmo comigo quando estás ao telemóvel durante o jantar.”

Quando o uso é saudável - e quando aparecem sinais de alerta

Nem todo o aumento de tempo de ecrã na velhice é um problema. Para muitos idosos, a Internet é um ganho enorme:

  • Manter contacto com família dispersa e amigos antigos
  • Grupos online ligados a hobbies, desporto, religião ou música
  • Cursos, palestras e vídeos educativos que ajudam a manter a mente activa
  • Informação médica, telemedicina e lembretes de medicação

Os sinais de alarme tendem a surgir noutros pontos:

  • Marcar e depois desmarcar compromissos para continuar online
  • Alimentação, sono ou higiene pessoal ficarem de forma persistente para segundo plano
  • Maior irritabilidade quando alguém menciona o telemóvel ou pede para o pousar
  • Ocupação constante com notícias negativas ou teorias da conspiração

Nestes casos, vale a pena uma conversa calma - e, se necessário, procurar apoio médico ou serviços de aconselhamento psicológico. Por trás do uso excessivo do telemóvel podem estar fases depressivas, ansiedade ou solidão muito marcada.

Competência digital na velhice: oportunidade e risco ao mesmo tempo

Há anos que especialistas em educação para os media sublinham a importância de orientar crianças no uso de smartphones. Para os mais velhos, programas equivalentes ainda são raros. Universidades sénior, serviços locais de apoio a idosos ou comunidades religiosas até têm lançado, com maior frequência, cursos de “tablet e smartphone”, mas quase sempre focados na parte técnica - e não na construção de limites saudáveis.

Fariam falta iniciativas que trabalhassem, de forma directa, questões como:

  • Como identificar Fake News e conteúdos manipuladores?
  • Como configurar notificações para que o telemóvel não chame a toda a hora?
  • Como planear períodos conscientes de pausa (off)?
  • Como usar serviços de IA sem ficar totalmente dependente deles?

Precisamente por esta geração reformada ser aberta à tecnologia, há muito por fazer. Existe curiosidade - mas também a necessidade de ideias práticas para que o digital reforce relações, em vez de as desgastar.

O que as famílias podem fazer, de forma concreta, já

No fundo, não há como evitar: as famílias precisam de criar regras e rituais que façam sentido para todas as gerações. Refeições sem telemóvel, acordos claros para as visitas e conversas honestas sobre sentimentos ajudam a que ninguém se sinta ignorado ou tratado como incapaz.

Ao mesmo tempo, compensa integrar o lado positivo da tecnologia no tempo partilhado: a avó mostra o vídeo da nova receita de bolos, o neto explica como reconhecer e-mails fraudulentos, o avô faz uma videochamada a contar as novidades das férias. Assim, o ecrã mantém-se uma ferramenta - e não o centro da convivência.

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