Uma lenda negra da Ferrari, um ícone do Hall of Fame, um desaparecimento enigmático e uma pista que se foi esbatendo durante mais de uma década: a história do Ferrari 512 TR de Michael Jordan parece saída de um guião. Agora, o carro que muitos já davam como perdido voltou a aparecer, escondido numa garagem na Califórnia.
O carro de uma era: o Ferrari 512 TR preto de Michael Jordan
Quando se pensa no início dos anos 90, surgem quase sempre duas imagens: os afundanços estrondosos de Jordan e a vida de superestrela fora do campo. Nesse retrato cabia um automóvel à altura do momento: um Ferrari 512 TR preto, entregue a 29 de Fevereiro de 1992, em plena fase de domínio dos Chicago Bulls.
O coupé, registado internamente como chassis número 1341, chegou-lhe através de um concessionário em Highland Park. Tinha pintura preta, interior claro e um V12 de 4,9 litros com mais de 420 PS. O doze cilindros empurra a silhueta baixa e em forma de cunha para lá dos 300 km/h. A exclusividade via-se também na matrícula: “M-AIR-J”, uma referência directa ao cognome “Air Jordan”.
Na altura, os fãs viam o carro antes de jogos importantes - incluindo o quinto jogo dos Playoffs de 1992 frente aos New York Knicks. As fotografias de Jordan de fato, com boné dos Bulls, ao lado do Ferrari escuro ajudaram a cimentar a imagem do megacraque do basquetebol como ícone de lifestyle.
"Um Ferrari preto com matrícula personalizada, estacionado à porta da arena - dificilmente há uma imagem que resuma melhor a era Jordan."
Do lugar de estrela na garagem ao vazio: como o Ferrari desapareceu
A 13 de Outubro de 1995, Jordan desfez-se do automóvel. O comprador foi o empresário Chris Gardner, cuja história de vida viria a inspirar o filme de Hollywood “The Pursuit of Happyness”. Gardner utilizou o Ferrari com regularidade e, com sentido de humor, trocou a matrícula para “NOT MJ”, criando um contraponto à fama do anterior dono.
O último momento público surgiu em 2010: Gardner colocou o carro à venda no leiloeiro Barrett-Jackson, em Orange County. O Ferrari 512 TR mudou de mãos por cerca de 61.600 a 100.000 dólares (aproximadamente 57.000 a 92.000 euros). Depois disso, silêncio total.
- sem novos registos de matrícula
- sem fotografias recentes em fóruns ou grupos de coleccionadores
- apenas rumores sobre exportação, acidente ou desmantelamento para peças
Para fãs e coleccionadores, parecia que o Ferrari de Jordan - antes tão visível - tinha sido literalmente engolido pelo chão.
A Curated, de Miami, transforma a busca num caso pessoal
Em Miami, a equipa da Curated, especializada em supercarros raros, não conseguiu largar o assunto. O negócio vive de peças únicas de colecção - e um Ferrari 512 TR que pertenceu a Michael Jordan encaixa exactamente nesse perfil.
A investigação passou a exigir método de detetive: a Curated catalogou todos os 512 TR pretos conhecidos, cruzou números de chassis, revisitou catálogos de leilões e ligou a contactos em todo o mundo. Várias vezes a solução pareceu estar próxima, até se revelar uma pista errada. Um exemplar foi seguido durante oito meses, até se confirmar o problema: VIN errado - ou seja, número de chassis errado.
Em paralelo, cresciam cenários sombrios. Uns diziam que o carro teria acabado como salvado de acidente e vendido às peças. Outros apostavam que estaria escondido há anos num parque privado algures no Médio Oriente ou na Ásia.
O Ferrari 512 TR de Michael Jordan e o avanço decisivo com um único número
A viragem não veio de uma denúncia espectacular, mas de um simples registo: um número de telefone associado ao chassis 1341. Uma chamada, uma mulher do outro lado - a esposa de um californiano que, segundo ela, tinha arrematado o carro no leilão de 2010.
Após a compra, o novo dono recebeu uma notícia devastadora: o diagnóstico de um cancro raro. Por motivos de saúde, o Ferrari foi quase imediatamente encostado na garagem. Ainda fez apenas algumas voltas nocturnas, e depois ficou parado de vez.
"Há muito poucos momentos nesta profissão que nos dão verdadeiros arrepios. Este foi um deles", contou mais tarde John Temerian, responsável da Curated.
Uma casa por pouco não consumida pelas chamas - e lá dentro estava o Ferrari de Jordan
Quando a equipa da Curated chegou finalmente ao local, na Califórnia, o cenário era quase irreal. A região tinha sido atingida por incêndios florestais severos. Em alguns pontos, restavam apenas fundações carbonizadas; as árvores apareciam como esqueletos queimados na paisagem. Ainda assim, a casa do proprietário do Ferrari continuava de pé - tal como o anexo da garagem.
Atrás do portão, protegido do exterior, aguardava o antigo 512 TR de Jordan. Durante quase 15 anos, ninguém tratou seriamente do automóvel. Uma camada espessa de pó cobria a carroçaria, os pneus estavam em baixo, a pintura sem brilho e com danos em vários pontos. Ao mesmo tempo, o interior parecia surpreendentemente bem conservado - quase como se Jordan tivesse acabado de estacionar o coupé.
Para quem o procurava, era evidente: estavam perante uma cápsula do tempo automóvel, que por milagre sobreviveu tanto ao fogo como ao esquecimento.
Regresso a Maranello: restauro completo num especialista Ferrari
Entretanto, o Ferrari segue caminho para a sua “casa”: Maranello, em Itália. A Carrozzeria Zanasi, parceira oficialmente autorizada da Ferrari, ficará responsável pelo restauro integral. O trabalho é pesado: carroçaria, mecânica, suspensão, sistema eléctrico, interior - com tantos anos parado, praticamente todos os componentes precisam de atenção.
Especialistas apontam custos na ordem dos 200.000 a 250.000 dólares, isto é, cerca de 185.000 a 230.000 euros. Para referência, um 512 TR “normal”, em excelente estado, ronda hoje um valor de mercado de aproximadamente 250.000 dólares.
| Aspecto | Estimativa / ponto de situação |
|---|---|
| Preço de compra no leilão de 2010 | cerca de 61.600–100.000 dólares |
| Custos de restauro | 200.000–250.000 dólares |
| Valor de um 512 TR “normal” | por volta de 250.000 dólares |
| Valor esperado com histórico Jordan | até 1 Mio. dólares possível |
Com um passado tão mediático, um “desaparecimento” quase cinematográfico e o capítulo da “garagem-milagre”, alguns conhecedores do mercado já falam num potencial valor na casa dos sete dígitos. E, caso o próprio Jordan mostre interesse em recuperar o carro um dia, a especulação em torno do preço poderá crescer ainda mais.
Porque é que o Ferrari de Jordan é tão cobiçado
Mesmo sem a componente celebridade, o 512 TR já é um jovem clássico muito desejado de Maranello. Trata-se de uma evolução do famoso Testarossa, com melhorias técnicas, claramente mais rápido e mais envolvente de conduzir. Para muitos coleccionadores, é o “irmão mais maduro” do poster-car dos anos 80.
No caso do exemplar de Jordan, somam-se vários factores:
- historial de celebridade bem documentado, com fotos da era Bulls
- chassis com correspondência numérica e história contínua
- longa imobilização, mas com um estado original pouco adulterado
- restauro profissional num atelier de topo
- o “factor sobrevivência” após os incêndios na Califórnia
Automóveis com esta combinação de notoriedade, raridade e narrativa tendem a tornar-se troféus: deixam de ser vistos no trânsito e passam a viver em garagens climatizadas ou em museus.
Como os coleccionadores abordam hoje estas raridades
Para muitos entusiastas sem orçamento milionário, a história parece distante - mas diz muito sobre o mercado actual. Já não conta apenas o estado mecânico ou o número de unidades produzidas. Histórias, fotografias com figuras públicas e reviravoltas improváveis pesam cada vez mais na avaliação.
Quem colecciona dá, por isso, importância crescente a histórico documentado: facturas antigas, resultados de leilões, proprietários famosos, até recortes de imprensa. Um carro menos chamativo à primeira vista pode transformar-se, com uma biografia forte, na “jóia” da colecção.
Ao mesmo tempo, este caso ilustra o quanto a armazenagem correcta é decisiva. O Ferrari de Jordan esteve parado durante muito tempo, mas num local seco e relativamente protegido. Se tivesse entrado água, ou se a estrutura da garagem não tivesse resistido ao incêndio, o sonho do V12 teria virado há muito um amontoado de metal.
Para quem gosta de desportivos mais antigos, vale a pena voltar ao essencial: ventilação adequada, protecção contra humidade, movimentar o carro ocasionalmente - ou, pelo menos, rodar o motor de forma controlada. Assim evitam-se danos que, mais tarde, podem somar dezenas de milhares numa restauração.
A reaparição do Ferrari 512 TR perdido de Michael Jordan mostra como a fronteira entre sucata e tesouro pode ser ténue - e quanta paixão, persistência e uma dose de sorte são necessárias para que uma peça esquecida da história do desporto e do automóvel volte a ver a luz do dia.
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