De repente, ali estava ele: coberto de pó e esquecido num império de garagens na Califórnia.
Bastou uma fotografia tirada no início dos anos 90 para deixar, ao mesmo tempo, apaixonados por automóveis e nostálgicos da NBA em estado de choque: Michael Jordan de fato, boné dos Bulls e, ao lado, um Ferrari 512 TR preto. O mesmo carro que, durante anos, simbolizou fama, sucesso e a era dourada dos Chicago Bulls, parecia ter desaparecido sem deixar rasto após uma leilão - até que um pequeno grupo de coleccionadores obstinados conseguiu agora localizá-lo de forma quase cinematográfica.
O Ferrari preto icónico de “Air Jordan”
O Ferrari 512 TR desta história não é um exemplar qualquer. O coupé com o número de chassis 1341 foi entregue novo a Michael Jordan a 29 de fevereiro de 1992, através do concessionário Lake Forest Ferrari, perto da sua residência em Highland Park. Pintura num preto profundo, interior claro e um V12 de 4,9 litros com mais de 420 cv - uma combinação que, no início dos anos 90, era uma declaração inequívoca: quem conduz isto está no topo do desporto e do glamour.
Com o doze cilindros, o 512 TR ultrapassa os 300 km/h. Em Chicago, não era raro vê-lo estacionado mesmo junto ao pavilhão, por exemplo no quinto jogo da série de playoffs de 1992 frente aos New York Knicks. A matrícula fazia um trocadilho com a alcunha de Jordan: “M-AIR-J”. Para muitos fãs, o carro e a imagem do superastro da NBA - quase intocável, ditando tendências dentro e fora do campo - tornaram-se uma só.
"Este Ferrari era o símbolo de uma era em que Michael Jordan dominava não só o parquet, mas também as estradas."
Do lugar na garagem de uma estrela ao desaparecimento misterioso
Em 1995, a narrativa do 512 TR preto muda de rumo de forma inesperada. Jordan vende o carro ao empresário Chris Gardner - o homem cuja história de vida viria mais tarde a inspirar o filme “The Pursuit of Happyness”. Gardner utiliza o Ferrari com regularidade, mas com um toque de humor: na matrícula lê-se “NOT MJ”, ou seja, “não Michael Jordan”.
Em 2010, Gardner coloca o Ferrari à venda através da conhecida casa de leilões Barrett-Jackson, em Orange County. O valor de martelo fica então algures entre 61.600 e 100.000 dólares, ou seja, cerca de 57.000 a 92.000 euros. Visto de hoje, para um Ferrari que foi de Jordan, soa quase modesto. Depois desse leilão, a pista desaparece por completo:
- não surgem novas fotografias em fóruns de coleccionadores
- não aparecem registos nas bases de dados de referência
- circulam apenas rumores vagos sobre exportação ou desmantelamento
A partir daí, para o público, o automóvel parece engolido pelo chão. E é precisamente esse vazio que, anos mais tarde, se transforma numa obsessão para um punhado de especialistas em Miami.
Curated in Miami: na pista do 512 TR desaparecido
A Curated in Miami dedica-se a supercarros raros e a “youngtimers” muito procurados. Lá, a equipa tropeça na velha imagem de Jordan ao lado do 512 TR preto e decide investigar. O que começa por curiosidade depressa vira febre de caça: cruzam bases de dados, seguem pistas, telefonam a comerciantes, vasculham anúncios antigos.
Como existem poucos 512 TR pretos, o foco recai sobre essa cor. Cada potencial candidato é analisado ao detalhe, com verificação meticulosa de números de chassis. Durante oito meses, seguem um 512 TR que parecia encaixar - até perceberem que não era o certo: VIN diferente, carro errado, beco sem saída.
"A procura pelo Ferrari de Jordan parece mais uma investigação criminal do que uma compra normal de um veículo."
Em paralelo, ganham força teorias sombrias. Uns apostam que o carro terá sido desmontado em peças após um acidente. Outros acreditam que foi enviado para o estrangeiro e vendido discretamente. Provas concretas, zero. A pista decisiva chega de forma banal: um número de telefone antigo associado ao número de chassis 1341.
O momento de choque ao telefone
Quando um elemento da Curated liga para esse número, atende uma mulher na Califórnia. Conta que o marido comprou precisamente aquele Ferrari no leilão de 2010, em Orange County. Pouco depois, ele é diagnosticado com uma forma rara de cancro. O carro não some por esquemas ou contrabando, mas por uma razão profundamente humana: o proprietário deixa de ter capacidade para o acompanhar.
Segundo o relato, o 512 TR vai quase de imediato para a garagem. De vez em quando, ele conduz alguns quilómetros à noite; de resto, o Ferrari fica parado. Para os “caçadores” de Miami, a conclusão é óbvia: finalmente estão a um passo do carro que lhes ocupa a cabeça há anos.
Um bairro queimado, um Ferrari intacto
Quando a equipa da Curated chega à Califórnia, depara-se com uma cena irreal. A zona foi atingida por incêndios violentos. Muitas casas estão destruídas, e os jardins parecem carbonizados. A casa do dono do Ferrari, porém, continua de pé - tal como o anexo da garagem. Quase parece um pequeno milagre.
Dentro da garagem, acontece o instante que os envolvidos mais tarde descrevem como “arrepios do princípio ao fim”. Sob uma camada espessa de pó, com pneus vazios e a pintura ligeiramente marcada, repousa o 512 TR preto de Michael Jordan. A silhueta é imediatamente reconhecível; a matrícula já não está activa, mas o interior surpreende pela positiva. Anos no escuro preservaram, mais do que degradaram, os estofos em pele e os elementos do tablier.
"Com pó, mas completo - assim se apresenta o desportivo que muitos já davam como perdido."
Do ponto de vista técnico, há muito por fazer: fluidos, tubagens, vedantes, toda a suspensão e o conjunto da transmissão precisam de inspeção e revisão. Ainda assim, para uma peça de garagem com este passado, o investimento faz sentido em todos os aspectos.
Restauração em Maranello: quando a pátina volta a ser brilho
A Curated decide enviar o Ferrari para Itália - mais precisamente para Maranello, para a Carrozzeria Zanasi. Trata-se de um parceiro oficial da Ferrari, especializado em restauros complexos. Especialistas estimam custos entre 200.000 e 250.000 dólares, ou seja, aproximadamente 185.000 a 230.000 euros.
O trabalho costuma incluir:
| Área | Intervenção |
|---|---|
| Carroçaria e pintura | Remoção da pintura, reparação de marcas de pedras e pontos de corrosão, repintura no tom original preto |
| Motor e caixa | Revisão completa do V12, substituição de componentes gastos, vedantes e mangueiras, verificação da caixa |
| Suspensão e travões | Substituição de amortecedores, apoios, componentes de travagem e pneus |
| Interior | Tratamento de pele, alcatifas e plásticos, com eventual troca de alguns elementos |
| Eléctrica | Verificação do chicote, reparação de unidades de controlo e instrumentos |
Mesmo um 512 TR “normal” em bom estado ronda hoje os 250.000 dólares. No caso do carro de Jordan, juntam-se vários factores que empurram o valor para cima: primeira matrícula com uma figura mundialmente conhecida, anos sem paradeiro, o momento de “achado de garagem” numa zona afectada por incêndios e uma revisão próxima dos padrões de fábrica em Itália.
Quem acompanha o sector admite que, depois do restauro, o valor pode subir de forma muito significativa. Fala-se em um milhão de dólares ou mais - sobretudo se Michael Jordan, algum dia, decidir recomprar o seu antigo Ferrari. Um gesto desses elevaria ainda mais o estatuto mítico do automóvel.
Porque é que os carros de celebridades são tão desejados
Veículos com passado “de celebridade” atingem regularmente preços recorde. Para muitos coleccionadores, não se compra apenas metal e engenharia: compra-se um pedaço de cultura popular. No caso de Michael Jordan, a equação é especialmente forte - é uma das figuras mais marcantes do desporto nas últimas décadas, e o seu nome representa uma era inteira do basquetebol.
Um Ferrari 512 TR sem história já é um jovem clássico altamente cobiçado. Com Jordan como antigo proprietário, o mesmo carro transforma-se numa memorabilia sobre rodas. E, nessa lógica, o comprador deixa de olhar apenas para quilometragem ou estado: paga também a narrativa que vem incluída - fotografias com a estrela, momentos históricos, recortes e reportagens da época.
Dinâmicas semelhantes já se viram com automóveis associados a Elvis Presley, Paul Walker ou Steve McQueen. Particularmente valorizados são os modelos ligados a fases específicas da vida dessas figuras - no caso de Jordan, aos primeiros anos da década de 90 e aos títulos iniciais com os Chicago Bulls.
O fascínio do carro de sonho “perdido”
A história deste 512 TR ajuda ainda a perceber porque é que veículos desaparecidos ganham um estatuto quase mítico no mundo dos coleccionadores. Um automóvel que some de todos os registos de um dia para o outro alimenta a imaginação: onde estará? Quem o conduz em segredo? Continua inteiro ou já foi desmontado? São perguntas que incendiam fóruns, canais de YouTube e conversas em feiras.
Para empresas especializadas como a Curated, isto é também uma oportunidade. Quem encontra um carro há muito dado como desaparecido e o recupera com seriedade não só pode fazer um bom negócio, como também se posiciona como “resolutor” e guardião de história. Ao mesmo tempo, há risco: um restauro dispendioso pode ultrapassar o orçamento, peças para Ferrari V12 são raras e caras, e a venda futura depende muito do clima do mercado.
Para os fãs, fica sobretudo uma certeza: a imagem icónica de Michael Jordan ao lado do seu 512 TR preto volta a ser mais do que uma fotografia nostálgica. O carro existe, está a ser devolvido à vida em Maranello - e, muito em breve, deverá regressar como símbolo ambulante daquela era em que “Air Jordan” marcou a NBA e também as garagens dos super-ricos.
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