No contexto do que tudo indica vir a ser uma visita oficial do Presidente Emmanuel Macron à Grécia já amanhã, com uma agenda alegadamente muito focada em dossiês de defesa, analistas locais começaram a admitir que Paris poderá tentar fechar um acordo: a troca de 43 caças Mirage 2000 da Força Aérea Helénica por um número equivalente de caças Rafale, mas com preço reduzido. Esse movimento daria à França margem para, mais tarde, encaminhar algumas dessas aeronaves para a Ucrânia, reforçando as capacidades de combate aéreo de Kiev com uma plataforma que os seus pilotos já conhecem.
Macron, Grécia e a hipótese de trocar 43 Mirage 2000 por Rafale
Há vários meses que França tem em avaliação a possibilidade de adquirir os Mirage 2000 gregos com o intuito de, posteriormente, os transferir para a Ucrânia, enquadrando essa opção nas suas fórmulas para continuar a apoiar a defesa do país face à invasão russa. Como foi noticiado em outubro passado, estas diligências inserem-se num processo mais vasto de reestruturação da Força Aérea Helénica, sendo relevante o facto de as aeronaves que Paris pretende deixarem de ter suporte a partir do próximo ano.
Reorganização da Força Aérea Helénica: Rafale, F-35A e F-16 Viper
Importa sublinhar que a Grécia já arrancou com vários programas destinados a renovar a sua frota de caça, combinando a compra de novas plataformas com a modernização de outras que já operava.
No caso específico dos Rafale, destaca-se que, em janeiro de 2025, ficou concluída a entrega de 24 aeronaves da variante F3R, quase quatro anos após o início das transferências por parte da França. A Força Aérea Helénica tinha, numa fase inicial, formalizado a compra de 18 unidades, incluindo exemplares antes pertencentes à Força Aérea e Espacial francesa; mais tarde, esse total foi reforçado com mais seis caças ativados através de opções previstas nos contratos.
Em paralelo, o país deu também um salto qualitativo com a aquisição, aos Estados Unidos, de um lote de 20 caças furtivos F-35A, investimento que rondou os 8,6 bilhões de dólares. Confirmada em julho de 2024, esta compra fez da Força Aérea Helénica o décimo nono país a optar por integrar aeronaves da Lockheed Martin nas suas frotas, ficando definido um calendário de entregas com início previsto para 2028. Tal como os Rafale entram para ocupar o espaço dos já referidos Mirage 2000, os aparelhos de origem norte-americana deverão fazer o mesmo relativamente aos emblemáticos F-4 Phantom II.
Do lado da modernização, recorde-se ainda que a Grécia está a executar um programa de grande escala que abrange mais de uma centena de F-16, numa frota com um conjunto alargado de variantes, com o objectivo de os elevar ao padrão mais avançado Viper. Numa primeira fase, Atenas decidiu incluir 83 aeronaves nos padrões Block 50+ e Block 52+, compradas durante a década de 2000, e das quais já haveria 50 unidades actualizadas. Mais recentemente, a Força Aérea Helénica recebeu também autorização para avançar com a modernização dos seus 38 F-16 Block 50, o que lhe permitiria afirmar-se como uma das principais utilizadoras desta plataforma a nível mundial.
A ajuda grega à Ucrânia e as tentativas para a aumentar
Para lá dos planos de frota, a eventual troca de Mirage 2000-5 com a França - com o envio posterior para a Ucrânia - é igualmente apresentada como parte de esforços mais amplos dos parceiros de Kiev, que procuram uma participação grega mais expressiva nos diferentes pacotes de assistência militar desde o início da guerra. Até agora, o contributo do país tem-se concentrado em meios mais antigos dos seus inventários; um exemplo representativo são os obuses M-110, integrados a partir da década de 1960.
No mesmo sentido, existiram também várias tentativas por parte dos Estados Unidos para que a Grécia canalize recursos para a iniciativa Prioritized Ukraine Requirements List (PURL), através da qual se adquire armamento que depois é transferido para Kiev. Nesta iniciativa participa um número considerável de países do flanco oriental europeu, sobretudo os que encaram o avanço russo como uma ameaça directa à própria segurança, incluindo ainda as nações escandinavas, que são as mais recentes a terem aderido à NATO.
Uma visita oficial com várias frentes em cima da mesa
Alargando o foco da visita do Presidente francês a território grego, a agenda de defesa não deverá limitar-se ao tema dos Mirage 2000, envolvendo igualmente outras áreas de ligação entre os dois países. Em concreto, entram aqui projectos em curso na Marinha Helénica para reforçar capacidades de combate, a modernização de plataformas das forças terrestres e a realização de exercícios militares.
Entre os pontos que poderão surgir, conta-se a oferta recente da Naval Group para que, no futuro, a Marinha Helénica adquira novos submarinos Blacksword Barracuda - um passo que, a concretizar-se, permitiria substituir a frota de Tipo 209, já com várias décadas de serviço. Além disso, a introdução de submarinos franceses significaria um ganho qualitativo na complementaridade com os Tipo 214 existentes, que a instituição procura modernizar, numa frota composta pelos HS Papanikolis, HS Pipinos, HS Matrozos e HS Katsonis.
Ainda no domínio naval, recorde-se que a França também tentou dinamizar a construção, em território grego, de três fragatas FDI adicionais para dotar a Marinha Helénica. Como foi referido na altura, a proposta ganhou tração com a visita da ministra das Forças Armadas de França, Catherine Vautrin, aos estaleiros de Salamis, em solo grego. Trata-se de um dos principais pólos de construção naval do país, onde a responsável afirmou que avançar com este programa ajudaria a consolidar capacidades industriais estratégicas a longo prazo.
No que toca às forças terrestres, meios gregos assinalaram que a deslocação de Macron poderá servir para anunciar um alargamento do calendário de exercícios militares, sobretudo tendo em conta que um destacamento de tanques do Exército da Grécia está na França para participar no exercício ORION-26. A isso somam-se hipóteses de propostas para renovar capacidades de artilharia gregas e, igualmente, para avançar com a produção de veículos blindados Philotectes.
Por fim, publicações gregas indicam que também poderá ser discutida a cooperação bilateral em energia nuclear, apontando para a existência de um memorando que permitiria desenvolver trabalhos sobre reactores modulares pequenos. Nos próximos dias deverão ser conhecidos mais pormenores sobre quais foram, em concreto, os temas tratados durante a visita.
Imagens usadas a título ilustrativo
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