Um pormenor discreto é muitas vezes ignorado - e pode sair mesmo caro.
Muitos condutores preocupam-se com pneus de inverno, bateria e escovas do limpa-vidros. Já o circuito de refrigeração com anticongelante costuma ficar para o fim da lista de prioridades - quando não é totalmente esquecido. E é precisamente aqui que se esconde um risco que pode ir de um radiador com fuga até um dano grave no motor.
Porque é que o anticongelante é muito mais do que um líquido colorido
À primeira vista, o líquido de refrigeração do motor não mostra do que é capaz. Normalmente verde, azul ou rosa, trata-se de uma mistura bem pensada. O componente principal é, em regra, o etilenoglicol. Esta substância faz com que a água congele apenas a temperaturas bastante mais baixas e, por outro lado, que não ferva tão facilmente quando a temperatura sobe.
Na prática, o líquido mantém o motor dentro de uma janela térmica estável - tanto no pico do verão como no frio mais intenso do inverno. Sem esta mistura, a água do sistema congelaria no inverno e, no verão, poderia entrar em ebulição quando o motor fosse exigido.
Além disso, há aditivos que trabalham “nos bastidores”: lubrificam a bomba de água, protegem o radiador por dentro e evitam a formação de ferrugem e calcário. São precisamente estes depósitos que, com o tempo, estreitam os canais do radiador e reduzem a capacidade de refrigeração.
"Sem anticongelante ajustado correctamente, o motor transforma-se no inverno numa bola de gelo e, no verão, num aquecedor - e ambos podem acabar por sair caros."
O que o frio pode mesmo provocar no compartimento do motor
Quando as temperaturas nocturnas descem muito abaixo de zero e a percentagem de anticongelante é insuficiente, a água no sistema pode congelar. A água congelada expande-se - e fá-lo com uma pressão enorme.
Danos típicos causados pelo gelo no automóvel
- Fissuras no bloco do motor: o líquido congelado “rebenta” zonas mais finas do metal; o bloco pode ficar irremediavelmente danificado.
- Radiador danificado: o corpo do radiador racha ou deforma-se, o líquido sai, e a refrigeração falha.
- Bomba de água comprometida: rolamentos e vedantes sofrem, surgem fugas ou ocorre avaria total.
- Mangueiras dobradas ou rebentadas: mangueiras antigas e ressequidas cedem primeiro; pequenas microfissuras podem passar despercebidas durante muito tempo.
Mas o gelo é apenas parte do problema. Sem a mistura certa, os inibidores de corrosão do líquido de refrigeração perdem eficácia. A partir daí, radiador, tubagens e até a cabeça do motor e o bloco começam a oxidar por dentro. Partículas de ferrugem circulam no sistema, entopem aletas e canais e impedem a dissipação do calor.
"Um circuito de refrigeração que vai ficando obstruído por dentro começa por causar pequenos problemas de temperatura - e muitas vezes acaba numa sobreaquecimento com a cabeça do motor empenada."
Sinais de alerta de que o circuito de refrigeração está em apuros
Quase sempre, o motor dá sinais antes de aparecerem avarias graves. Quem ignora estes avisos arrisca contas desnecessariamente elevadas.
Alertas mais comuns
- Indicador de temperatura na zona vermelha: o ponteiro sobe mais do que o habitual ou oscila de forma estranha.
- Luz de aviso do líquido de refrigeração: carros modernos assinalam no visor nível baixo ou sobreaquecimento.
- Líquido colorido no chão: poças verdes, azuis ou rosas indicam quase sempre perda de líquido de refrigeração.
- Vapor denso no compartimento do motor: vapor branco junto ao radiador é sinal de sobreaquecimento agudo.
Se surgir um destes sintomas, o carro deve ir o mais depressa possível para uma oficina - ou, pelo menos, para um local seguro onde possa ser verificado. Continuar a circular depois de um sobreaquecimento leva muito frequentemente a danos secundários, como junta da cabeça queimada ou cabeça do motor deformada.
Como proteger o motor com anticongelante antes de surgirem danos por gelo
A boa notícia é que, com algumas rotinas simples, é possível proteger o motor de forma bastante fiável contra danos provocados pelo frio.
Pontos essenciais de manutenção do anticongelante e do circuito de refrigeração
- Verificar regularmente o nível: uma vez por mês e, no inverno, de preferência com mais frequência; observar o vaso de expansão com o motor frio.
- Usar apenas líquido aprovado: seguir as indicações do fabricante no manual. Produtos errados podem não ser compatíveis quimicamente entre si.
- Cumprir os intervalos de substituição: consoante a marca, trocar a cada dois a cinco anos ou após 40.000 a 60.000 quilómetros.
- Pedir verificação nas revisões: a oficina deve inspecionar cuidadosamente radiador, mangueiras, braçadeiras e bomba de água.
"Uma substituição completa do líquido de refrigeração custa muitas vezes menos do que um único radiador novo - quanto mais um motor danificado."
Onde se coloca o anticongelante - e o que deve evitar ao fazê-lo
O ponto de enchimento fica no compartimento do motor. Normalmente é um reservatório de plástico semi-transparente com marcações de “mín.” e “máx.”. Na tampa costuma existir um símbolo de termómetro ou um aviso.
- O nível deve manter-se sempre entre as marcas, idealmente numa zona média a alta.
- A tampa não deve ser aberta com o motor quente. Pressão e calor podem provocar queimaduras graves.
- Se o produto for concentrado, deve ser misturado na proporção correcta com água destilada antes de ser colocado no reservatório.
- Se no vaso de expansão o líquido estiver muito escuro, acastanhado ou com aspecto de “lama”, recomenda-se uma lavagem completa do sistema numa oficina.
Até que frio aguenta? Escolher a mistura certa
A proporção entre água e anticongelante define até que temperatura o líquido de refrigeração se mantém fluido. Para a Europa Central, uma protecção até cerca de menos 25 a menos 30 graus é, na maioria dos casos, um valor prático.
| Percentagem de anticongelante | Protecção aproximada até |
|---|---|
| 30 % concentrado / 70 % água | ca. -15 °C |
| 40 % concentrado / 60 % água | ca. -25 °C |
| 50 % concentrado / 50 % água | ca. -35 °C |
Mais de 60% de concentrado não traz protecção adicional contra o gelo; a mistura torna-se mais viscosa e pode até piorar a transferência de calor. As oficinas usam instrumentos de medição para verificar a resistência real ao congelamento - um controlo sensato antes de cada época de inverno.
Porque é que a protecção anticorrosão no líquido de refrigeração é tantas vezes subestimada
Muita gente associa o anticongelante apenas ao frio. Na realidade, a protecção contra a corrosão funciona durante todo o ano. Evita a formação de ferrugem e depósitos que, a longo prazo, entopem canais e atacam vedantes.
Sobretudo em veículos mais antigos, as superfícies internas já podem estar desgastadas. Um líquido velho e “gasto” agrava o problema em vez de o reduzir. Colocar líquido de refrigeração novo diminui claramente o risco de fugas em flanges, uniões de mangueiras e tampas.
"Quem mantém o circuito de refrigeração limpo prolonga muitas vezes a vida do motor por muitos anos - uma vantagem clara face ao simples ‘conduzir até avariar’."
Exemplos práticos do dia a dia na oficina
Todos os invernos, as oficinas veem casos muito semelhantes: um citadino que passou anos apenas com água da torneira no sistema de refrigeração chega de reboque com o bloco do motor rachado. Quase sempre já não compensa reparar, e o valor residual cai a pique.
Outro exemplo típico: carrinha familiar de segmento médio com muita quilometragem, com líquido de refrigeração sem troca “há uma eternidade”. Em auto-estrada, a temperatura começa a subir de forma anormal e, mais tarde, a junta da cabeça acaba por ceder. No circuito aparecem lamas de ferrugem e fragmentos que entupiram o radiador.
Em ambos os casos, uma simples verificação do vaso de expansão e a substituição atempada do líquido teriam, muito provavelmente, poupado muitos milhares de euros. Quem faz muitos quilómetros e quem conduz veículos mais antigos ganha bastante ao dar um pouco mais de atenção a este ponto.
Outros riscos no inverno e combinações que fazem sentido
O anticongelante é apenas uma peça da preparação para o inverno, mas trabalha em conjunto com outros componentes. Uma bateria fraca, somada a um arranque a frio mais “pesado” e a uma refrigeração menos eficiente, aumenta significativamente o esforço no momento de ligar o motor. Trajectos curtos com frio pioram tudo, porque o motor mal chega à temperatura de funcionamento.
O mais sensato é combinar medidas: anticongelante novo, mangueiras verificadas, termóstato a funcionar, bateria em bom estado e pneus de inverno adequados. Assim, não só diminui o risco de avaria como o consumo tende a manter-se mais baixo, já que o motor atinge mais depressa e de forma mais estável a faixa ideal de temperatura.
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