A indústria automóvel europeia enfrenta uma verdadeira tempestade perfeita: metas de emissões que, para serem cumpridas, dependem de veículos elétricos que não estão a atingir volumes de venda suficientes; concorrência particularmente agressiva, com origem sobretudo na China; um contexto geopolítico em mudança; e uma “guerra” comercial à escala mundial.
Perante este cenário, a indústria automóvel e a Comissão Europeia (CE) decidiram sentar-se à mesma mesa - desde o final do mês passado - com o objetivo de encontrar respostas e desenhar um Plano de Ação.
Este diálogo envolve vários intervenientes: representantes do setor automóvel (construtores e fornecedores), outras associações (de consumidores e ambientais), o Conselho da União Europeia e o Parlamento Europeu.
As metas deste diálogo estratégico são diretas: reforçar a competitividade, acelerar a inovação, assegurar a transição para uma mobilidade limpa e aumentar a resiliência da cadeia de distribuição.
Entretanto, esta crise na indústria automóvel europeia serviu também de ponto de partida ao Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do Pisca Pisca.
O que podemos esperar do Plano de Ação para a indústria automóvel europeia?
Este Plano de Ação já tem data de apresentação marcada: 5 de março. As expetativas são elevadas e o seu conteúdo poderá influenciar de forma significativa o futuro da indústria automóvel europeia e a sua posição no mercado global.
Há cinco grandes áreas em discussão entre os participantes: Inovação e liderança em tecnologias futuras; Descarbonização; Competitividade e resiliência; Relações internacionais; e Racionalização regulatória e otimização dos processos.
No capítulo da inovação e liderança em tecnologias futuras, o diagnóstico é conhecido: as empresas europeias estão a perder vantagem em domínios decisivos, como software, baterias de nova geração e condução autónoma. É plausível que surjam novos incentivos à inovação, mais apoio a startups e regras mais eficazes para facilitar a colaboração em I&D (investigação e desenvolvimento).
Já a descarbonização é, neste momento, o tema mais mediático: existem objetivos ambientais cada vez mais exigentes a cumprir. Por isso, o Plano de Ação poderá contemplar algum tipo de revisão da regulamentação, bem como medidas para acelerar a expansão da infraestrutura de carregamento e incentivar a compra de mais veículos elétricos.
Em paralelo, a indústria automóvel tem lidado com custos elevados em matérias-primas, energia e mão de obra. Torna-se essencial que o setor consiga reforçar a competitividade e resiliência face à concorrência (em especial a chinesa), quer através da redução de custos, quer garantindo o fornecimento de componentes críticos, como baterias.
E falando precisamente de concorrência, ela chega de países com políticas agressivas de apoio à indústria automóvel, o que distorce as regras do mercado. Daí a renovada relevância das relações internacionais, sendo esperado que o Plano de Ação inclua medidas que promovam transparência e concorrência justa no comércio global.
Por último - mas com peso considerável - a racionalização regulatória e otimização dos processos procura responder a uma das críticas mais repetidas do setor às entidades reguladoras: excesso de burocracia e sobreposição de regras. O foco passa por desburocratizar e simplificar.
“A indústria automóvel europeia atravessa um momento de viragem e estamos cientes dos desafios que ela tem pela frente. Temos de agir rapidamente para lhes dar resposta.”
Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia
Alteração das metas de emissões?
Uma das matérias mais sensíveis em cima da mesa prende-se com as metas de emissões de CO2, que os construtores têm de baixar em 15% - média 93,6 g/km para a indústria - até ao final do ano. Sem esquecer o objetivo final de reduzir as emissões em 100% até 2035.
Há vários fabricantes em risco de falhar o cumprimento, o que pode resultar no pagamento de multas multimilionárias, de vários milhares de milhões de euros - são 95 euros por carro e por grama acima do estipulado. Por isso, vários construtores defendem que as regras devem ser revistas.
Um dos possíveis resultados deste “Diálogo Estratégico” entre a CE e a indústria poderá passar por uma revisão das regras ou do calendário, procurando equilibrar as ambições ambientais com a viabilidade das próprias empresas - estão em causa mais de 13 milhões de postos de trabalho na Europa.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário