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Conduzi o novo Audi A6 elétrico e foi tudo o que estava à espera

Carro branco elétrico Audi A6 e-tron em exposição dentro de concessionário moderno.

O A6 e-tron tem ar de Audi e, ao volante, aproxima-se (quase) de um Porsche. Era a peça alemã que faltava.


O novo Audi A6 e-tron corresponde ao que eu esperava - e ainda entrega um pouco mais. Passei dois dias com ele em Tenerife, Espanha, e fiquei sem dúvidas: em qualidade percebida e em tecnologia, a marca volta a colocar-se na linha da frente. E sim, também surpreende a conduzir, já lá vamos.

Este é, de facto, um novo capítulo na história de um dos pilares do segmento executivo há mais de 30 anos. Levar o nome A6 não é tarefa simples.

Talvez por isso, nesta geração, a Audi recorreu ao apoio de uma velha conhecida: a Porsche. E quem acompanha o percurso destas duas marcas alemãs sabe que, quando os seus engenheiros trabalham lado a lado, o resultado tende a marcar época. Recorda-se do Audi RS2? Exatamente…

Por baixo das linhas muito cuidadas do A6 e-tron - é o Audi com menor resistência aerodinâmica de sempre - está a plataforma PPE, desenvolvida em conjunto pelas duas casas. Da PPE já nasceram propostas como a segunda geração do Porsche Macan e o novo Audi Q6 e-tron.

Há também aquela sensação de “engenharia alemã”, de verdadeiro domínio do ofício, ou - como diria a própria marca - “Vantagem pela técnica”, lema que durante anos definiu os quatro anéis. É uma aura que não se compra nem se aluga, e que leva muito tempo a construir.

A forma como responde aos comandos, o equilíbrio da suspensão e a sensação de leveza (mesmo com mais de duas toneladas) são, por si só, a notícia que muitos esperavam. Nas próximas linhas explico porquê.

Os mesmos rivais de sempre

Os tempos mudam, mas certas rivalidades ficam. O A6 e-tron era a peça em falta no habitual trio alemão. A Mercedes-Benz adiantou-se com um “Classe E” elétrico, o EQE. A BMW respondeu com o i5. Agora, a Audi completa a equação com o A6 e-tron.

Há também diferenças de filosofia: Mercedes e Audi optam por plataformas dedicadas a elétricos, enquanto a BMW decidiu partilhá-la com o Série 5 a combustão.

Olhando apenas para as carroçarias, o EQE mantém-se polémico como sempre. Já o i5 paga, em termos de proporções, o compromisso de assentar numa base que serve tanto motores elétricos como térmicos. A Audi, tal como a Mercedes, escolheu começar do zero - e o resultado é visualmente mais distinto.

É, para mim, o mais apelativo. Ainda assim, o desenho mais orgânico e fluido do novo Audi A6 e-tron - e alguns detalhes decorativos que parecem dispensáveis - não traduz tão bem, à primeira vista, aqueles valores de precisão, robustez e depuração associados ao aclamado período “Bauhaus” da Audi no fim dos anos 90 e início deste século. Está perto, mas podia estar ainda mais próximo.

Mais tecnologia, mas menos usabilidade

Deixando o estilo de lado, confirma-se o essencial: o A6 e-tron é, no geral, aquilo que esperávamos.

No interior, a montagem é irrepreensível e a seleção de materiais acompanha esse nível. Os novos revestimentos em tecido, em particular, são muito agradáveis ao toque e criam um contraste interessante com o ambiente assumidamente tecnológico.

Será tecnologia a mais no Audi A6 e-tron? Talvez

Nem tudo é perfeito: não é um habitáculo imediatamente intuitivo e exige algum tempo de adaptação. Os interiores dos carros alemães (e não só), que em tempos foram referência em ergonomia, lógica e facilidade de utilização, perderam terreno nesses capítulos à medida que a digitalização avançou.

Em contrapartida, acertar numa boa posição de condução é simples. Os ajustes (sempre elétricos) de bancos e volante têm ampla amplitude e, apesar de o volante não ser totalmente redondo - com topo e base achatados -, isso não se revelou um incómodo.

A visibilidade é competente, com exceção da zona traseira. À frente, os pilares não interferem demasiado ao aproximar-se de cruzamentos ou em curvas para a esquerda.

Avant não tem mais espaço para bagagens

O espaço a bordo é igualmente generoso - com quase cinco metros de comprimento, seria obrigatório que assim fosse -, mas os 502 l de bagageira não impressionam, ficando até ligeiramente abaixo dos A6 a combustão.

É capacidade suficiente para a maioria dos cenários, sem dúvida, mas custa perceber por que motivo a Avant oferece exatamente o mesmo volume da Sportback.

Até porque ambas têm cinco portas e, se a Avant pode ter um pouco mais de potencial de versatilidade no limite, acaba por soar sobretudo a escolha de estilo. Em eficiência - beneficiando da melhor aerodinâmica - é a Sportback que volta a levar vantagem.

Tração traseira num A6

Onde o novo Audi A6 e-tron mais me apanhou de surpresa foi na dinâmica. Ainda por cima, os percursos em Tenerife eram, maioritariamente, estradas de montanha - mais apropriadas a um desportivo do que a uma carrinha elétrica com quase cinco metros e bem mais de duas toneladas.

E, no entanto, a A6 e-tron Avant mostrou uma agilidade e uma leveza de reações, sem sacrificar eficácia, que se afastam do típico “curvar sobre carris” dos A6 a combustão e, em geral, do carácter de muitos Audi. É, claramente, mais prazerosa e recompensadora. A direção encaixa nessa nova fluidez: precisa e direta na medida certa.

É aqui que a herança Porsche da plataforma PPE mais se revela. Ao contrário de (quase) todos os Audi até hoje, este A6 foi concebido com tração traseira de base - e isso sente-se ao volante. E não apenas na versão Performance, com o motor elétrico montado no eixo traseiro; também no S6 e-tron, com tração às quatro rodas (um motor por eixo).

Há ainda outro fator: apesar de ser mais um elétrico com excesso de massa, aqui ela está melhor repartida. A bateria de 100 kWh (tanto no Performance como no S6 disponíveis) fica baixa e próxima do solo, garantindo aos A6 e-tron e S6 e-tron um centro de gravidade muito reduzido.

Os mais de 2200 kg aparecem, como é natural, nas travagens mais exigentes. É nesses momentos que se percebe a inércia que levamos para dentro das curvas. Ainda assim, nota muito positiva para os travões, sobretudo pelo tato e pela facilidade de modular o pedal - algo que nem sempre é simples nos eletrificados, devido à transição entre travagem regenerativa e hidráulica.

O eixo traseiro assume protagonismo e imprime uma nova personalidade dinâmica ao executivo da Audi. E isto acontece sem recurso a eixo traseiro direcional, ao contrário de alguns rivais.

Aliás, depois de subir e descer uma montanha ao volante do S6 e-tron, com troços bastante sinuosos, quando perguntei ao responsável pela dinâmica destes A6 e S6 elétricos por que razão não incluíram eixo traseiro direcional, a resposta foi imediata: “sentiu falta?” - e ficou tudo dito.

Tive oportunidade de conduzir o A6 e-tron Performance e o S6 e-tron, e acabei por preferir o mais caro e potente. Mas não foi apenas pela força extra - 551 cv contra 381 cv, que já chegam para nos colar ao banco -; foi sobretudo pela suspensão pneumática de série no S6.

Essa suspensão acrescenta controlo sobre os movimentos de carroçaria sem roubar agilidade nem conforto, e ainda melhora a precisão. A boa notícia é que também pode ser escolhida como opção no Performance.

Estradista nato

Ainda assim, quem é fã da marca pode ficar descansado: o A6 e-tron continua a ser um excelente “estradista”. Em autoestrada mantém aquela qualidade imperturbável, combinando isolamento e estabilidade como poucos sabem fazer.

É fácil imaginar muitos e muitos quilómetros a mais de 160 km/h como se fosse a coisa mais normal do mundo. E isso ajuda a justificar a bateria de 100 kWh - permite fazer mais quilómetros em ritmos de autoestrada.

Consumos? Para isso, vai ser preciso um ensaio mais longo em Portugal. Neste primeiro contacto, o percurso levou-nos da cota zero, ao nível do mar, até ao topo de uma montanha com 2200 m - e nem sempre com o pé leve -, pelo que não há milagres.

Quanto custa o novo Audi A6 e-tron?

Em Portugal, o Audi A6 e-tron começa nos 66 900 euros, com encomendas abertas desde o final do ano passado. As entregas arrancam no final deste mês ou no início do próximo.

O preço de entrada fica abaixo dos principais concorrentes, Mercedes-Benz EQE e BMW i5, mas nas versões seguintes - como o Performance e o S6 que conduzi - acaba por alinhar com eles.

Ainda assim, o novo Audi A6 e-tron diferencia-se dos rivais pela bateria de 100 kWh, que lhe dá vantagem no capítulo sempre decisivo da autonomia.

Na Europa, é verdade que pode não parecer o momento ideal para lançar uma grande berlina e carrinha 100% elétrica, mas isso não diminui a qualidade do produto.

Este novo executivo tem tudo o que se espera de um Audi; a diferença está em ser elétrico e, sobretudo, na surpresa ao volante, bem mais dinâmica do que antecipava.

Veredito

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